Contos

Quando Amanhecer — Prólogo

SINOPSE: Após tantos séculos desprezando sua vida amaldiçoada, Krad não imaginava encontrar sua razão de viver nos olhos violetas de uma humana. Mas a química entre eles é intensa e o amor, incontrolável. Hoje, o casal corre em uma Ferrari azul, assaltando bancos e desfrutando do bom e do melhor em hotéis cinco estrelas. Contudo, quando o caminho deles cruza com de Ryan, herdeiro da máfia de St.Claire, o romance abrasador, porém, instável é posto à prova, e a resposta para todas as perguntas só virá à tona quando a escuridão guardada em cada alma amanhecer…

Boa Leitura ❤

PRÓLOGO

Gira a maçaneta com extremo nojo. A água jorra e ele torce para que ao menos seja límpida. Enquanto aguarda ela esquentar, pragueja várias vezes em seu íntimo por ter demorado tanto em sair da cidade. Após tantos golpes, as orelhas dos cães do Estado já estavam levantados, atentos ao som de cada passo seu nas ruas. Assim, precisou desfazer-se dos luxos e confinar-se em uma pousada velha e de qualidade duvidosa, no bairro mais afastado do centro. Para sua segurança? Não. Para a segurança dela.

Apesar do antiquado chuveiro, o vapor quente logo sobe, anuviando o vidro do box feito neblina.

Krad coloca-se em pé sob a água. De olhos fechados, aprecia o toque dos dedos molhados que descem pelas curvas do corpo nu e musculoso. Gestos e passos rápidos eram naturais à sua espécie e o mundo sempre mostrava-se lento demais ante sua presença. Mas, ao menos no banho, zelava para que seu tempo se igualasse ao dos homens. Gostava de sentir o corpo gélido aquecer um pouco. Percebia-se menos bicho, menos morto.

Sem que permita, um dos lados da porta de vidro escorrega para o lado. O vampiro não faz alarde. Mantém as pálpebras unidas e continua a saborear o líquido quente em sua pele.

Ante a indiferença, dedos finos resolvem delinear sua cintura — o que lhe causa um arrepio—, e em seguida fecham-se num abraço. Os seios macios são pressionados contra suas costas, sem vergonha. Unidos enfim, os corpos molhados aquecem-se juntos de prazer e excitação.

— Não te vi chegar, mas ouvi o chuveiro. Poderia ter me acordado.

Sua voz soa manhosa sobre os burburinhos da água corrente. Deita o rosto, friccionando na pele do amante uma das bochechas já coradas com o calor, ainda meio sonolenta. A umidade invade suas madeixas e escurece o castanho.

— Prefiro que aproveite o sono — suspira amargurado. Era um dos prazeres que há muito deixara de ter. Para o vampiro essa sonolência que pinta o rosto da amada é raridade.

— Se fossem sonhos bons, talvez valessem mesmo a pena.

Fay tinha mais pesadelos que sonhos e, ultimamente, bastava fechar os olhos para as sombras voltarem. Nos sonhos, vultos atravessam flashes de luz, sem um padrão ou forma definida. Não sabe quem ou o que é, no entanto a dor que lhe causam é extremamente real. Seu espírito parece em chamas e as veias sofrem com a invasão das correntes elétricas. Acima dos seus, gritos agonizantes entrecortam as cenas, vindo de um lugar longínquo. Apenas deitada ao lado de Krad, tinha um pouco de paz no mundo onírico.

— Não fique pensando neles.

— Eu tento.

Há muito concluíra que a amnesia era uma espécie de proteção criada pelo seu próprio cérebro a fim de amenizar os traumas que deve ter sofrido. Lamentava-se, porém, de não ser o bastante para afasta-la totalmente dos sentimentos tortuosos do passado que ainda lhe precedem. Ela preferia mil vezes sonhar nada que recordar lembranças apagadas da memória.

Relutante, o vampiro desvencilha-se da garota e vira-se a fim de devolver devidamente o gesto carinhoso. Toda vez que a abraçava, presenciava o perfeito encaixe de seus corpos, ainda que ela tenha baixa estatura e ele seja mais alto que a maioria dos homens. Krad apreciava a sensação de tê-la só para si dentro dos braços, mesmo assim era estranho: um vampiro desalmado apaixonado por uma humana.

Não que Fay fosse uma reles humana. Ela era mais que isso.

Com uma das mãos, acaricia seu rosto. Os olhos violetas, vidrados nos seus, guardam a luz obtusa da lâmpada no teto, mas tremula com visível angústia. E o medo que lhe é transferido pelo toque parte seu coração — se é que esse órgão ainda existe nele.

— Ninguém lhe fará mal. Eu lhe garanto. Eu não vou permitir — sério, a voz grave é um sopro.

Não é romântico, sim possessivo. Mas Fay não consegue deixar de sorrir.

— Sei que não. — O sorriso de desenhar covinhas é angelical. — Posso te ajudar a banhar?

Estende o braço para capturar o sabão francês — comprara mais cedo, pois tudo na pousada estava totalmente abaixo dos padrões do casal. Desliza as palmas, do peitoral definido às costas largas, substituindo a água por espumas. Ao seu toque, os músculos dele tencionam, os pelos arrepiam e surge uma nova pressão entre os corpos.

— Desculpa — pede ele, mas não há um pingo de remorso. As íris, pouco a pouco, ganhavam um brilho de predador.

A menina desenha uma expressão travessa.

Com ainda mais desenvoltura, as pontas das unhas delineiam os traços rijos do bíceps e quadril e demoram-se nos locais mais sensíveis; tudo para ascender as chamas dentro do vampiro. Olho no olho, os lábios roçam sem colarem-se de fato. O perfume floral sobe, misturando as respirações. Krad, sem avisar, corresponde à tamanha tentação segurando firme as nádegas da amante e ajeitando o pequeno físico na altura de seu quadril. Fay prende as pernas ao redor daqueles músculos, deliciando-se com o controle que detém sobre o companheiro.

Por mais que sentisse subjugado, Krad não podia controlar o desejo fluindo nas veias e artérias. Cada ranhura em suas costas lançavam faíscas à fogueira — seu íntimo ansiando por mais carícias. Apenas ela era capaz de penetrar as barreiras gélidas erguidas feito muralha ao redor de seu coração e fazer surgir emoções há tempos esquecidas.

Desliza uma das mãos pela espinha até o couro cabeludo, massageando a nuca. Entre arfares sedutores, os lábios cor de cereja parecem entoar um cântico, atraindo seus sentidos para as profundezas do amor incontrolável. Não demora muito e as presas rasgam a gengiva prontas para abocanhar o pecado.

Acima das vontades pecaminosas, no entanto, o soar de um velho relógio-cuco em algum lugar da pousada desperta Krad. Antes que Fay capture seus lábios a fim de iniciarem o ritual da luxúria, retoma sua racionalidade e interrompe-se. Embora a queira mais que tudo, já tinha planos para a noite e o compromisso era inadiável.

De modo brusco, retira, pelos punhos, os braços que o enlaçavam. Pressiona-os contra a parede, recua o quadril e desvencilha-se das pernas, desligando-se plenamente dos encantos da garota.

Dependurada feito boneca, Fay fita-o com espanto, sem entender.

— Não tenho tempo para isso — Krad diz entre os dentes. A força que inventa em seu íntimo vai de encontro aos seus desejos mais animalescos e a frustração deixa-o de péssimo humor.

 A contragosto, desliza o vidro e parte para o quarto com sua velocidade sobre-humana.

Quando a menina o alcança, ele já está praticamente vestido, apenas os últimos botões da camisa social por abotoar.

— O que houve de repente? — indaga visivelmente chateada.

Recostada no batente do banheiro da suíte que dividem, fita-o ainda nua e molhada. Os braços cruzados avolumam os seios à mostra. A fim de não cair outra vez em tentação, Krad faz questão de não encara-la.

— Negócios.

— De madrugada?

— Não posso roubar em horário comercial. — Conclui o nó da gravata.

— E não podemos nem terminar o que começamos?

A simples menção ao sexo provoca-lhe tesão. O desejo não fora contido totalmente e qualquer deslize o faria perder a hora na cama com sua pequena. Porém, para escaparem dos olhares dos federais o roubo era crucial. Depois poderiam comemorar em um hotel cinco estrelas.

Com rapidez, vai de encontro à garota, cobrindo-lhe os ombros com um de seus paletós para evitar um resfriado.

Há muito a velocidade vampírica já não a surpreende, e Fay mantém seu olhar violeta fixos no dele.

— Nem se formos bem rápidos?

Krad pinta um sorriso de canto, em deboche.

— Se eu fizer “rápido” eu te quebraria por dentro.

— Não subestime minha capacidade regenerativa — rebate com uma pontada de raiva.

— Voltarei antes do amanhecer.

Beija-lhe a testa e parte.

Fay odiava as noites que ele a abandonava para realizar seus assaltos. Ciente da importância do crime para o sustento de ambos, ela queria poder ajudar. Invadir, roubar e explodir, tudo era muito fácil, tanto para o vampiro quanto à mutante. No entanto, suas habilidades psíquicas e mediunidade não eram tratadas por Krad como armas valiosas. Para ele, a garota era frágil demais, ingênua demais. Não permitia que o acompanhasse, muito menos que saísse sozinha sem permissão. Por isso, Fay sentia-se inútil e menos amada. Às vezes percebia-se uma boneca nas mãos de Krad, sempre obediente e disponível para devorar quando lhe conviesse.

Nas horas que passa sozinha no escuro do quarto, ao alcance dos uivos do vento e dos avanços dos pesadelos, imagina que talvez todo o amor entre eles seja uma invenção de sua mente desesperada por afeto e carinho. A química entre eles era evidente, mas quando mais precisava, Krad não estava ao seu lado. Com toda sua postura nobre e fria, o vampiro jamais disse que a ama.

Assim, parte para a noite, seguindo os paralelepípedos e as coordenadas que sua mente lhe envia, ao encontro do seu amado ser da noite. Fay queria provar o seu valor, mostrar-se digna do amor que inventara.

Gostaram? Ler Mais

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s